<T->
          Coleo H Casos          
          Um estranho sonho 
          de futuro

          Casos de ndio

          Daniel Munduruku

Impresso Braille, em 
2 partes, na diagramao 
de 28 linhas por 34 caracteres, 
da Editora FTD, SP, 2004.

          Segunda Parte

          Ministrio da Educao 
          Instituto Benjamin Constant
          Av. Pasteur, 350-368 -- Urca
          22290-240 Rio de Janeiro
          RJ -- Brasil
          Tel.: (0xx21) 3478-4400
          Fax: (0xx21) 3478-4444
          E-mail: ~,ibc@ibc.gov.br~,
          ~,http:www.ibc.gov.br~,
          -- 2007 --
<P>
          Copyright (C) Daniel 
          Munduruku, 2002

          Editora 
          Maria Esther Nejm

          Todos os direitos de edio 
          reservados  Editora FTD S.A.
          Rua Rui Barbosa, 156 (Bela Vista) -- So Paulo -- SP 
          CEP 01326-010 
          Tel.: (0xx11) 3253-5011 
          Fax: (0xx11) 3284-8500 
          r. 254
          Caixa Postal 65149  
          CEP da Caixa Postal 01390-970
          Internet: ~,http:www.ftd.com.br~,
 E-mail: ~,linguas.redacao@ftd.~
  com.br~,
<P>
                                I
 Sumrio

Segunda Parte

 10- Medo de ndio ::::::::: 81
 11- Lucas pescador :::::::: 86
 12- Um estranho sonho 
  de futuro ::::::::::::::::: 96
 13- Um reencontro com a 
  tradio :::::::::::::::::: 107
 14- As pegadas do 
  curupira :::::::::::::::::: 116
 15- Onze de setembro :::::: 126
 16- Retorno para casa ::::: 132
 Final: As conseqncias 
  da viagem ::::::::::::::::: 142
<66>
<p>
<Testranho sonho>
<T+81>
 -- 10 -- 

 Medo de ndio

  Uma vez fui a uma escola conversar com as crianas sobre os 
indgenas do Brasil. Gosto de fazer isso porque acredito que as 
crianas e os jovens so mais fceis de mudar seu pensamento que os 
adultos. Tinha sido convidado pela diretora e por isso me dirigi a 
ela quando cheguei  escola. Estava vestido normalmente e nada em mim 
era de espantar ou causar constrangimento. Alis, sempre fiz questo 
de conversar com as crianas desse jeito porque assim elas poderiam 
ver a transformao acontecendo e aprender que h muitas formas de 
ser ndio hoje no Brasil.
  Alguns dias antes de ir at a escola contei para a diretora, em 
detalhes, o que iria fazer e disse-lhe que no se preocupasse porque 
tudo sairia de acordo com o combinado.
  Quando cheguei l, as crianas j estavam me esperando com uma 
certa tenso. Eu senti isso no ar e j fui me preparando para o pior.
  No final da sala de aula estava a professora e atrs dela havia uma 
menininha de uns cinco anos de idade. Ela estava agarrada  saia da 
professora de tal modo que parecia que ia arranc-la. A moa bem que 
tentou, fez de tudo para convencer a menina 
<67>
de que no tinha nenhum bicho-papo ali, ao contrrio, havia uma 
pessoa que era diferente.
  Nada disso adiantou e ento pedi para que a mestra deixasse que ela 
fizesse o que quisesse. Comecei, em seguida, a contar uma histria 
que ia aos poucos prendendo a ateno dos meninos e das meninas. A 
garota, que continuava assustada e agarrada  professora, foi 
relaxando at sentar no cho junto com seus colegas.
  Quando percebi que ela tinha entrado no clima da minha conversa, 
fui explicando para eles sobre a cultura de nossa gente, iniciando 
por falar sobre a pintura corporal. Tirei de minha bolsa -- um cesto 
Xavante que sempre trago comigo -- um estojo com urucum e passei a 
pintar o meu rosto, causando alvoroo entre as crianas, que seguiam 
atentamente o meu gesto. Enquanto fazia isso, ia explicando o sentido 
que os povos indgenas davam  pintura corporal e como eram feitas as 
tintas.
  A menininha que tinha tanto medo do ndio foi relaxando e entrou na 
atividade de tal forma que foi a primeira a chegar-se at mim e pegar 
na minha mo quando os convidei para danar uma msica de meu povo. 
Foi tambm a primeira da fila na hora em que propus aos presentes uma 
pintura no rosto.
  Contei essa histria para os presentes quela sala e todos riram a 
valer. O professor Misael ficou parado por alguns instantes pensando 
na menina e em como ela tinha reagido. Em seguida fez novas 
perguntas.
  -- Obor, Daniel, eu entendi a histria, mas no entendi por que 
ela tinha medo de ndio. Ela no era muito pequena? De onde, ento, 
veio esse medo?
  --  difcil dizer, Misael, mas acho que as crianas tm esse medo 
por causa do que elas vem na televiso ou lem nos jornais. Os 
jornais sempre trazem informaes sobre os povos indgenas, mas 
muitas notcias mostram alguma coisa ruim sobre nossa cultura. Dessa 
maneira as pessoas acham que o ndio  selvagem, ou preguioso, 
violento ou atrasado. O pensamento delas no consegue entender o 
nosso jeito de viver.
<68>
  -- No ser por causa da escola tambm? -- perguntou Arnaldo, que 
estava quietinho no canto, ouvindo tudo com bastante ateno.
  -- A escola  uma das principais culpadas, sim. H professores que 
no se esforam muito para aprender as coisas certas e acabam 
ensinando aquilo que eles aprenderam quando eram crianas. E o que 
eles aprenderam so os esteretipos, as caricaturas do que  a 
cultura indgena. Mas existem boas escolas e bons professores que 
fazem um trabalho muito srio com seus alunos.
  -- Quando se fala de nosso povo, o que mais assusta os pariwat?
  -- Quando eu digo que nosso povo caava cabea e dela fazia um 
trofu de guerra. Eu at brinco dizendo para eles no mexerem comigo 
seno cabeas rolaro...
  Disse isso acompanhando com alguns gestos e caretas e todos riram 
bastante. Em seguida comearam a sair da sala porque precisavam 
trabalhar para conseguir o que comer naquele dia. Concordamos em 
nos encontrar  noite para contar outras histrias da cidade.

               oooooooooooo

<70>
<p>
 -- 11 -- 
 
 Lucas pescador

  Depois que todos deixaram a sala pedi que algum fosse procurar 
Lucas, que tinha sado com as crianas e ainda no tinha voltado. 
Precisvamos providenciar nossa comida para aquele dia. Eu sabia que 
no ficaramos com fome porque as pessoas da aldeia providenciariam o 
que comer, porm era importante participar do cotidiano delas e 
buscar -- como todos fazem -- nosso alimento dirio.
  Lucas chegou animado dizendo que havia brincado muito com as 
crianas e tinha aprendido, inclusive, algumas palavras na lngua. 
Fiquei orgulhoso do rapaz. Combinamos o que faramos de almoo e ele 
sugeriu uma pescaria. Era, na verdade, a coisa mais fcil, porque 
evitava que a gente sasse para a mata atrs de caa, uma vez que no 
tnhamos muito tempo para ficar ali. Chamei dois rapazes da 
comunidade para que providenciassem canoa, remos, iscas e varas de 
pescar, alm de,  claro, arco e flecha. Pedi a Lucas que fosse com 
eles para saber onde conseguir esse material.
  Em dez minutos voltaram trazendo tudo e anunciando estarem prontos 
para a pescaria. Conferi o material e samos, no sem antes avisar 
Lucas para no esquecer de levar o bon, o 
<71>
protetor solar e o seu faco. Por que ser que os jovens sempre 
esquecem coisas teis?
  Descemos o rio na pequena canoa pilotada por um dos garotos que nos 
acompanhavam. Seguimos durante meia hora at chegar num local que os 
pescadores gostavam de ficar porque ali era mais fcil encontrar os 
peixes, j que eles iam at os barrancos atrs de comida.
  O piloto parou a canoa e lanamos as varas de pescar ao rio. Um dos 
meninos empunhou o arco e a flecha e ficou no aguardo de uma boa 
viso para atirar. Lucas o observava atentamente para ver como ele 
conseguiria fazer aquilo. At se esqueceu de jogar sua linha. Depois 
o alertei para a pescaria.
  O dia no estava muito bom. O igarap apresentava calmaria e o sol, 
a pino, nos castigava lentamente. Para completar, havia muito 
carapan circundando nossas cabeas e cantando uma mesma melodia bem 
em nossos ouvidos. " a lida do pescador", pensei com os meus botes.
  Assim, passamos boa parte da manh sem conseguir nada. Mesmo o 
pescador com arco e flecha no visualizou nada interessante para 
mostrar sua destreza. Lucas se impacientava. "Moo da cidade no tem 
pacincia", provocou Taw da proa do barco, falando na lngua. Kar 
achou graa do que o amigo havia dito. Lucas no tinha entendido nada 
e batia nos braos para matar pernilongos que teimavam em atac-lo.
  -- As pessoas da cidade tm outro tempo -- eu disse. -- L, o tempo 
passa mais rpido porque eles vivem em funo do relgio, que 
controla as horas. A mente deles est voltada para o movimento, para 
o fazer as coisas sem pensar direito.
  -- Na cidade as pessoas vivem como? Elas moram mesmo dentro das 
caixinhas como vemos pela televiso?
  Lucas arregalou os olhos e me encarou, meio desconfiado. Pedi a ele 
que respondesse aquela pergunta. Ele fez um gesto de quem no sabia o 
que dizer. Mesmo assim insisti para que respondesse. Ele voltou seu 
olhar para o rio, que corria lentamente, deu um inaudvel suspiro e 
falou com os rapazes da canoa.
<72>
  -- A nossa vida na cidade no segue o mesmo ritmo daqui da floresta 
porque a preocupao que a gente tem l  muito diferente. A gente 
vive uma vida muito cheia de coisas pra fazer. L a gente tem 
obrigaes que aqui vocs no tm. Temos cobranas da sociedade, da 
famlia, da escola, dos nossos amigos... Temos que aprender milhes 
de coisas que nunca vo servir pra nada em nossa vida. Aqui pelo 
menos vocs s aprendem o que precisam e nada mais.
  -- Pelo visto voc no aprendeu nada aqui -- comentou Kar.
  -- O que eu vi desde que comecei esta viagem mostra que h mais 
liberdade para as pessoas porque vocs no esto presos aos horrios 
estabelecidos por outras pessoas. Quem estabelece o que fazer so 
vocs mesmos. No  assim?
  -- Nisso voc tem razo. Aqui a gente faz o que quer e na hora que 
quer. Mas no  uma vida to simples assim. A gente tem obrigaes 
que nossa comunidade nos d e da qual a gente tambm no pode fugir, 
seno nossos pais brigam com a gente.
  -- Que tipo de coisas so essas?
  -- Temos que aprender o que nos vai ser til no nosso dia-a-dia, 
como caar, pescar, coletar frutas, plantar mandioca, derrubar mata 
para fazer roado, ajudar a fazer farinha. Alm disso, temos que 
treinar nossos sentidos para ouvir os sons da mata, ler os sinais que 
os animais deixam, descobrir as plantas que nos fazem bem ou mal, 
aprender os cantos tradicionais, preparar festas.
  -- Mas tudo isso no  gostoso de aprender? -- perguntou Lucas 
admirado.
  -- Para fazer tudo isso a gente tem que dividir nosso tempo. No 
pense que  pouco porque todos ns temos ainda que praticar os 
conhecimentos que aprendemos. Para isso passamos por alguns rituais 
que servem para nos provar, para ver se a gente aprendeu mesmo tudo 
-- tomou a palavra Taw, dirigindo-se a Lucas.
  --  gostoso, sim, mas depois que a gente j passou por tudo isso. 
Durante o nosso aprendizado, sofre-se muito porque, dizem
<73>
nossos velhos, s se aprende de verdade quando passamos pelo 
sofrimento -- arrematou Kar.
  --  engraado mesmo. Na cidade as pessoas costumam evitar a dor, o 
sofrimento porque acham que sofrer no  bom para elas, para os 
filhos, para a sociedade. E mesmo evitando tudo isso as pessoas no 
parecem felizes. J aqui, olhando vocs, as crianas, os velhos, as 
moas da aldeia, todos parecem que esto de bem com a vida. Como  
isso? -- indagou Lucas olhando fixamente para o rio.
  Os dois rapazes entenderam que o pariwat estava pensando em voz 
alta, refletindo sobre a vida da cidade, e no deram a mnima 
resposta, como se estivessem deixando Lucas chegar as suas prprias 
concluses. Eu ouvia tudo sem me pronunciar. Sabia que depois ele 
perguntaria para mim as dvidas que tinha.
  O silncio prevalecia no barco. Todos se calaram e prestaram mais 
ateno ao que faziam. Nesse silncio total, apenas quebrado pelos 
sons da floresta, pudemos acompanhar um tucunar que se aproximava 
rapidamente da canoa. Ele passou direto por nossas iscas e foi para 
debaixo do barco. Quando ele apontou do outro lado, Taw desferiu um 
golpe certeiro com seu arco e flecha, deixando Lucas boquiaberto. O 
peixe comeou a se debater, mas a flecha tinha atingido as costas, 
tornando impossvel sua fuga. Calmamente Taw dirigiu-se at o peixe 
e o retirou da gua do rio. Depois lhe arrancou a flecha, colocou-o 
na altura da boca e disse algumas palavras na lngua munduruku. 
Imediatamente o peixe se acalmou e foi colocado no fundo da canoa. 
Lucas me olhou espantado, meio que pedindo uma explicao. Mas quem 
lha deu foi Taw.
  -- Ns acreditamos que os peixes e todos os seres de nossa floresta 
so nossos parentes e amigos. Quando matamos um para nossa 
alimentao, temos que dizer a ele que nos perdoe e que quando a 
gente morrer vamos alimentar a nossa grande me, a me de todos ns, 
a terra. Foi isso que eu disse para o peixe.
  Lucas achou estranha aquela explicao, mas preferiu no perguntar 
mais nada. Percebeu que aquela cultura era regida 
<74>
por estranhas conjugaes que sua cabea da cidade no estava 
acostumada a fazer. O melhor, naquele momento, era ficar em silncio. 
E isso ele j havia aprendido ali.
  Nossa pescaria teve mais sucesso a partir de ento. Conseguimos 
pescar bastante peixe para nosso almoo e, quem sabe, para o jantar. 
O mais curioso  que cada vez que Lucas conseguia um peixinho, ele o 
trazia at a boca e falava algumas palavras inaudveis.
  Algum tempo depois voltamos para casa a fim de preparar nosso 
alimento. Fizemos uma gostosa caldeirada de tucunar, que repartimos 
com nossos amigos que haviam nos acompanhado. Depois decidimos 
descansar durante a tarde, aproveitando o hbito local de relaxar 
aps o almoo.

               oooooooooooo

<76>
<p>
 -- 12 -- 

 Um estranho sonho de futuro

  Aps almoar a deliciosa caldeirada de tucunar, resolvemos 
descansar. Deitei na minha rede e fiquei pensando em tudo o que 
estvamos vivendo. Pensei na experincia de Lucas, moo da cidade 
acostumado com *shoppings*, automveis, msica alta, danas exticas, 
escolas quadradas. Pensei nos jovens do meu povo, crescendo na 
liberdade, mas com muitos problemas nas costas, problemas trazidos 
pela cidade, pela ganncia. Pensei nas nossas crianas, que iro 
crescer quase sem terra para caar, sem rios e igaraps para pescar. 
Tero que comprar alimentos na cidade, tero que estudar na cidade, 
tero que trabalhar na cidade. Pensei no futuro.
  -- Futuro? O que  isso? -- perguntou-me o pequeno Taw.
  --  o que seremos amanh -- respondi.
  -- Mas o que  futuro? -- insistiu teimosamente o menino.
  --  o que a gente vai ser quando crescer -- tentei ser didtico.
  -- Eu ainda no entendi direito. Deve ser porque sou criana -- 
concluiu o garoto.
  -- No  por isso, no, Taw. O futuro  difcil mesmo de entender 
para qualquer um.
<77>
  -- Mas, primo -- olhou-me fixamente --, se o futuro  o que eu vou 
ser quando crescer, voc que j cresceu no  o futuro? O meu futuro 
no  voc? Para mim  muito difcil entender essas palavras porque 
nosso av sempre diz que s existe o presente, o agora, que  bom 
viver um dia por vez.
  -- Nosso av tem razo, Taw. Voc tambm tem razo. Eu sou seu 
futuro. A gente que vive na cidade sempre se esquece disso. As 
pessoas adultas sempre pensam nas crianas do futuro e no lembram 
que elas foram crianas um dia e que hoje elas vivem seu prprio 
futuro.
  -- Quando eu for adulto -- pensou Taw do alto dos seus nove anos 
--, vou continuar defendendo o nosso presente. Nossas crianas vo 
ter um futuro: eu.
  Fiquei pensando no que o menino havia falado, mas ele, aps dizer 
aquelas palavras, sumiu no mato atrs dos seus amigos.
  O mais interessante dessa conversa foi que, quando dei por mim, no 
havia ningum conversando comigo. Ser que eu tinha sonhado? O que 
poderia significar esse sonho? Teria eu sonhado devido ao alimento 
que havia ingerido?
  Precisava contar meu sonho ao paj to logo o encontrasse, pois 
nossa tradio nos ensina que precisamos contar o que sonhamos ao 
nosso paj para que ele nos diga o sentido do que os espritos nos 
falaram durante o sono.
  Pensando nisso nem notei que Lucas j tinha levantado e estava 
<p>
pronto para iniciar outra aventura antes do dia chegar a seu final.
  
 O despertar da paixo

  Deixei Lucas por conta dos meninos da aldeia. No era minha 
preocupao nem minha vontade ficar vigiando o que ele gostaria de 
fazer. Sabia que estaria em boas mos e isso me aliviava bastante. De 
minha parte, queria procurar o paj para contar meus sonhos.
  Enquanto caminhava para a casa do paj notei uma movimentao 
curiosa debaixo das mangueiras. Desconfiado, fui me aproximando 
<78>
na surdina para no ser notado. Ouvia vozes mas no via pessoas. Vez 
ou outra tinha uma risadinha desconfiada que vinha ali daquele lugar. 
Curioso que estava, aproximei-me e fiquei observando a cena.
<p>  
 Cena 1

  Um grupo de meninos -- aproximadamente treze anos -- estava 
desfilando diante de um grupo de meninas -- aproximadamente doze 
anos. Eles as provocavam gesticulando bastante, mostrando o msculo 
dos braos e das pernas. Vez ou outra chamavam a ateno delas 
contando alguma piada ou atirando longe uma flecha, impulsionada pelo 
arco. As meninas soltavam pequenas risadinhas aprovando o feito do 
rapaz.
  Isso levou uns quinze minutos. Era um desfile de msculos e pernas, 
um ritual de seduo. Meninos estavam mostrando suas "competncias" 
para as meninas. Depois disso elas os iriam escolher.
  
 Cena 2

  Os meninos comearam a subir nas mangueiras. Cada um deles ia para 
uma rvore diferente. Como num piscar de olhos, alguns deles 
retornavam para o solo. Traziam belas mangas nas 
<79>
mos e as ofereciam s meninas. Cada um ia direto para a menina que 
lhe interessava conquistar. As meninas continuavam passivas.
  
 Cena 3

  As meninas colocaram as mangas a seus prprios ps. Enquanto isso, 
os meninos voltaram a seus lugares e as espiavam em suas aes. Em 
seguida elas se abaixaram, apanharam suas mangas e deram voltas em 
torno de si mesmas. Depois passaram a abrir as frutas e as 
degustaram. Saborearam por uns dois minutos e foram at o menino que 
lhes havia oferecido e passaram a ele a fruta, que a pegou e mordeu 
de uma nica vez.
  
 Cena 4

  Todos trocaram olhares diversas vezes e se dispersaram indo cada 
grupo para lados opostos.
   claro que conhecia bem aquele ritual, mas fiquei encantado com 
sua realizao naquele momento. Era, para mim, uma volta no tempo de 
minha infncia. Lembrei os momentos que tambm passara por isso. 
Confesso que fiquei com saudade dos rituais de minha gente. Rituais 
que no podia fazer com tanta freqncia por ter ido para a cidade, 
por ter feito uma opo por meus estudos. Baixou meu astral e resolvi 
seguir o caminho da casa do paj.

<80>  
 Seguros so os caminhos trilhados 
  muitas vezes

  -- Voc no deve ficar se torturando por isso, meu neto. Voc foi 
mandado para a cidade para falar de nossa gente para as pessoas de 
l. Voc teve que abrir mo disso, dos rituais, mas no tem que abrir 
mo de suas certezas.
  -- Mas, v, l na cidade as pessoas no compreendem nossos rituais. 
Acham que tudo isso  bobagem.
  --  bobagem porque eles no compreendem nem a si mesmos. Se eles 
fossem mais atentos veriam que os bons caminhos so aqueles que j se 
andou muito por cima. A gente corre menos riscos de encontrar cobras, 
onas e outros bichos ferozes.
  -- Talvez o senhor tenha razo, meu av. Mas o que voc quer dizer 
com isso?
  -- Meu neto foi para a cidade estudar, mas no est conseguindo 
entender palavras simples. Quero dizer que  preciso manter os 
rituais sempre vivos. Eles so caminhos seguros. Atravs dos rituais 
sabemos mais sobre ns mesmos e temos a garantia da tradio. Temos 
feito isso por muito tempo e nossa gente  feliz.
  -- Tem razo, meu av. Eu vi a alegria nos olhos de meus primos 
quando estavam ali, conversando com as meninas.
  -- Quando eu era criana -- disse o velho paj, a quem todos 
chamvamos de av -- tudo era bem diferente. A gente no tinha as 
facilidades que hoje as crianas tm. Coisas que as pessoas compram 
na cidade e usam aqui.
  Num ritmo lento, o velho homem comeou a lembrar momentos de sua 
infncia. Fazia isso com muito sentimento. Sentados ali, no terreiro 
em frente a sua casa, no notei que o grupo aumentava e o prprio 
Lucas havia se aproximado. Voltei a prestar ateno ao que o paj 
dizia.
  -- Quando eu fui para a floresta encontrar minha vida adulta, 
fiquei com muito medo. A floresta era para mim um mistrio que eu 
queria desvendar a qualquer custo. Mesmo assim fiquei com medo. L, 
sozinho, sem minha famlia para me amparar, pensei muito e conversei 
com os espritos dos seres. No incio 
<81>
fazia isso por medo, depois fui me acostumando e percebi que a vida 
na floresta podia ser uma grande festa. Aos poucos fui perdendo o 
medo e pude usufruir daquilo que a floresta tem de melhor: o silncio 
e a fala dos bichos. Ali aprendi coisas que nenhum ser humano pode 
ensinar. Foi ali que me realizei e vi que h um sentido na vida da 
gente. Foi muito bonito.
  O velho estava emocionado. Seus olhos brilhavam fitando o passado 
que ele havia vivido.
  Todos ns -- jovens, velhos, homens, mulheres e crianas -- 
observvamos a mgica com que aquele homem falava do passado, do seu 
passado. Era notria a emoo de todos ali presentes. Eu fiquei muito 
feliz. Naquele momento me ocorreu a presena do meu velho av 
Apolinrio, que sempre nos falava da histria de nossa gente com 
lgrimas nos olhos, relembrando o passado glorioso que havia vivido.
<82>
  No precisei de mais explicaes para compreender a importncia dos 
nossos ritos. Olhar nos olhos do velho paj falando suas prprias 
experincias e ver a ateno das crianas pareceu-me to verdadeiro, 
to ntimo, to sobrenatural que no me restava outra soluo que 
reverenciar a sabedoria dos nossos ancestrais.
  Com esse sentimento resolvi que eu precisava reencontrar-me com os 
espritos da floresta. Precisava alimentar meu prprio esprito com 
sua sabedoria.
  Anunciei isso ao paj. Ele olhou para mim com toda a compreenso e 
fez um sinal de aprovao com a cabea. Eu j havia recebido esse 
sinal antes e sabia o que devia fazer.

               oooooooooooo

<84>
<P>
 -- 13 -- 

 Um reencontro com a tradio

  A noite estava para soltar o dia quando levantei. Era a hora do 
caador, hora em que o sonhador acorda para contar seu sonho da caa 
e convidar todos os amigos para juntar-se a ele para um dia de boa 
caada. No era esse meu objetivo. Acordei Lucas e lhe disse o que 
precisava fazer. Ele me compreendeu e voltou a dormir.
  Peguei um ikti e coloquei nele alguns objetos pessoais que iria, 
certamente, usar em minha rpida misso: chocalho, pena de mutum, 
arco e flecha, urucum, frutas e jenipapo. No deixei ningum ver 
quando encostei na casa do paj e assobiei para despert-lo. Levei um 
baita susto porque o paj apareceu atrs de mim, cutucando minhas 
costas. Confesso que fiquei gelado na hora. Virei-me e encontrei-o 
rindo de mim. Divertimo-
 -nos com a ocasio e resolvemos partir.
  Andamos por horas seguidas at uma grande clareira na mata. O paj 
disse que era o lugar do princpio do mundo. J tinha ouvido falar 
muitas vezes desse lugar, mas nunca havia estado ali antes.
  O paj pediu que eu fizesse um crculo no cho e me colocasse 
dentro dele. Disse que no sasse por motivo algum para no 
<85>
colocar em perigo a minha vida e a vida dele tambm. Obedeci. Sentei 
no cho e passei a retirar os objetos de dentro do cesto. De onde 
estava conseguia ver o paj procurando algumas ervas. Ele as 
arrancava depois de conversar com elas.
  Acendeu um fogo baixo. Pensei que era para assustar as onas.
  -- Aqui as onas no vm. Elas sabem que  lugar sagrado. Aqui  a 
morada dos espritos. De nada adianta elas se aproximarem porque no 
tem comida, no tem nada que lhes seja til.
  Ouvi calado as palavras do sbio. Sabia que ele lia meus 
pensamentos e se ele precisasse explicar alguma coisa o faria sem que 
eu perguntasse.
  Fiquei aguardando a volta do paj e, enquanto o observava,  lembrei 
minha infncia, quando vivia na aldeia aprendendo as coisas da 
tradio. Meu velho av era meu professor, pois ele sempre me 
ensinava tudo o que eu precisava aprender: ler as letras do cu no 
vo dos pssaros; o nome das estrelas; pegadas dos animais; sinais do 
tempo. Muitos desses conhecimentos eram passados atravs de histrias 
que ele e os outros velhos nos contavam ao redor da fogueira.
  Lembro que eles sempre nos diziam que um dia teramos que nos 
reencontrar com a tradio porque no importaria o caminho que a 
gente fizesse, era sempre importante voltarmos nossa mente e nosso 
corao para nosso povo.
  Isso marcou bastante a minha vida, mas nunca tive oportunidade de 
perguntar quando seria chegado o tempo desse reencontro. Mesmo depois 
de ter voltado tantas vezes para a aldeia e vivido muitas 
experincias junto com meus parentes, no conseguia descobrir o que 
seria esse reencontro. At esse momento.
  Sentado ali, no crculo sagrado, aguardava o momento do meu 
reencontro com a tradio conforme meu velho av, j falecido, me 
havia alertado um dia.
  O paj aproximou-se e fez duas voltas ao redor do crculo cantando 
na lngua dos espritos. Fazia isso e balanava a pena de mutum 
contra o vento com o objetivo de equilibrar o universo e 
<86>
nossa vida. Em seguida pediu que eu fechasse os olhos porque eu iria 
atravessar o portal do tempo e me reencontraria com a tradio. 
Confesso que fiquei com medo, mas obedeci. Peguei uma cuia que ele me 
ofereceu e tomei seu contedo num nico gole...
  
 O tnel do tempo

  Minhas lembranas e meu corpo foram transportados para outra 
dimenso. Encontrava-me num lugar desconhecido para meus olhos, porm 
muito familiar ao meu esprito. Ali encontrei os meus antepassados, 
que antes s encontrara em sonhos. Receberam-me como quem estava 
sendo esperado h muito tempo. Com eles conversei bastante usando a 
linguagem do sonho. Ensinaram-me coisas que eu no conhecia e, acho, 
no teria tempo de aprender jamais. Tudo era muito rpido. Um 
autntico cursinho pr-vestibular onde muita coisa  relembrada ao 
aluno, coisas que ele j sabia, mas que havia esquecido.
  Enquanto estive ali -- imaginei que era muito tempo, mas foi puro 
engano quando voltei  realidade --, ia ouvindo as vozes dos 
antepassados que me sussurravam a sabedoria antiga. De olhos fechados 
via o universo sendo criado, os antigos morando no centro da terra, 
num mundo perfeito. Via os espritos criadores atuando sobre nossa 
gente, trazendo benefcios a todos; alertando nosso povo a trilhar o 
caminho do bem, da paz, da harmonia. 
<87>
Vi nossos antepassados lutando para sobreviver, construindo uma 
sociedade igualitria, uma sociedade que no permite que uns tenham 
mais que os outros; vi nossa gente, enfim, cantando, danando, 
contando e ouvindo histrias para manter a tradio viva, permanente. 
Quanta coisa bonita de ver! Quanta alegria, felicidade, harmonia!
  Depois de viver os caminhos dos antepassados, abri meus olhos e 
voltei a ver a realidade que me cercava. Nesse instante o velho paj 
aproximou-se e disse-me que minha experincia havia terminado.
  Pediu-me para sair do crculo e o apagou lentamente, passando os 
ps sobre ele. Entregou-me o ikti e retomamos o caminho de volta 
para a aldeia.
  
 Entendendo a passagem

  -- Meu av vai ficar quieto, sem me explicar o que houve?
  -- Sua metade urbana est falando mais alto de novo, meu neto. Voc 
quer entender com a cabea mesmo tendo mergulhado no mundo dos 
espritos.
  -- Meu av tem razo. Sou movido pela razo, pelo entendimento das 
coisas. No sei se isso  bom ou ruim, mas eu preciso compreender o 
que houve comigo.
  -- Meu neto encontrou-se com a tradio. Todo mundo de nosso povo 
pode ter este encontro. No pense que  um privilgio seu. Nossa 
gente no precisa de privilgios e no estimula que uns sejam 
melhores que os outros...
<88>
  -- Eu j aprendi isso, meu av. Alis, eu j sabia, mas tive 
confirmao dessa verdade.
  -- Assim tem que ser. A tradio permanece viva com estes mergulhos 
que a gente tem que dar. Mesmo voc, que vive na cidade grande, 
precisa mergulhar nos mistrios da tradio para que ela se mantenha 
viva. Daqui pra frente voc sabe muito mais do que sabia e ter mais 
responsabilidades que antes. Voc  um de ns.
  Fiquei horas pensando nas palavras do paj. Quando chegamos  
aldeia, muita gente veio nos receber, como se todos soubessem o que 
havia acontecido. Na verdade, sabiam e tinham que se certificar de 
que tudo havia corrido bem. Quando perceberam que estvamos bem, 
dispersaram-se imediatamente. Lucas aproximou-se um tanto 
desconfiado, tentando entender o que se passara. Prometi que depois 
lhe contaria tudo com detalhes.
  Naquela noite ainda me reuni com os velhos da aldeia e eles me 
abenoaram, dizendo que precisaria voltar para a cidade, onde eu 
tinha uma vida j organizada. Disseram, ainda, que meu amigo pariwat 
j sentia saudade de casa, dos pais e dos amigos.

               oooooooooooo

<90>
<p> 
 -- 14 -- 
 
 As pegadas do curupira

  Lucas e eu nos despedimos de todos os amigos da aldeia. A 
comunidade toda foi at a margem do igarap para nos dar adeus. 
Quando nosso povo gosta de uma visita, toda a comunidade vai 
despedir-se na beira do igarap a fim de desejar um retorno feliz aos 
visitantes. Isso nos deixou muito contentes.
  Lucas havia feito muitas amizades entre os meninos e meninas. 
Talvez por isso ele estivesse um pouco triste por ter que ir embora. 
De qualquer forma, havia tirado muitas fotos e registrado sob forma 
de desenho suas aventuras. Segundo ele, isso j valera a pena da sua 
viagem.
  Embarcamos para nosso retorno com o dia engolindo a noite. Nicolau 
tomou seu lugar e colocou o barco no rumo do grande Tapajs. Durante 
a primeira hora de viagem ficamos calados, apreciando a paisagem. 
Lucas aproveitou para dormir mais um pouco, apoiado nos sacos de 
farinha que estvamos levando. Eu preferi ir prximo ao ajot que nos 
acompanhava. Havia coisas que eu ainda queria saber e o mais indicado 
para contar-me era aquele homem que j havia experimentado muitas 
coisas durante sua vida.
<91>
  -- Meu av est muito pensativo -- falei, tentando puxar conversa, 
mas o homem apenas acenou com a cabea e acendeu um cigarro de palha. 
Seu olhar acompanhava a margem direita do igarap com um certo ar de 
melancolia. Desisti de puxar conversa e fiquei observando o local. Eu 
j havia andado tantas vezes por aquela regio e sempre ficava 
admirado com sua beleza e suntuosidade. Ali embaixo eu me sentia 
pequeno. Lembrava-me de quando viajava de avio e sobrevoava a 
Amaznia. L em cima procurava identificar algum lugar que conhecia, 
mas isso se tornava uma aventura impossvel, uma vez que era imensa, 
sem incio nem fim, igualzinho nossas histrias, nossos mitos.
  -- Foi neste lugar que topei com o curupira -- disse o ajot, 
chamando-me para a realidade. Ele indicava o local com o dedo.
  -- Como foi isso, av? -- perguntei, chamando Lucas para ouvir a 
histria.
  -- Foi h muito tempo. Eu ainda era um garoto. Devia ter a idade do 
menino branco.
  -- Conte para ns o que aconteceu.
  -- Cabitutu. J era tardezinha e o sol estava indo descansar. Meus 
amigos e eu amos at o alto de uma rvore e de l pulvamos rumo ao 
rio. Gostvamos de ficar assim horas a fio, sem nos preocuparmos com 
o tempo.
  O velho deu um tempo na narrao para tomar flego enquanto pitava 
seu cigarro. Esse momento  muito importante para quem conta uma 
histria, pois cria expectativa em quem a escuta. Alm disso, 
reportava o velho para um instante longnquo em sua memria.
  -- Estvamos nos divertindo muito e no percebemos o tempo passar. 
Quando nos demos conta, a noite j havia cado quase por completo. 
Quisemos ir embora, mas um dos amigos notou que estvamos longe e 
havia um perigo real ao nos dirigirmos  aldeia. De qualquer forma 
decidimos continuar o caminho. No estvamos com medo, mas tnhamos a 
impresso de que algo nos seguia. Isso nos deixava apreensivos e um 
tanto
<92>
curiosos. Um dos amigos falou baixinho para seguirmos em frente sem 
olhar para os lados. Tentamos fazer isso, mas no conseguimos porque 
apareceram, misteriosamente, umas pegadas que seguiam na mesma 
direo da aldeia. Nos entreolhamos e sentimos um calafrio na 
espinha. Sempre fizemos esse caminho, desde crianas, e o conhecamos 
como ningum. Era sempre usado por ns para ir ao igarap tomar banho 
e brincar. Nunca havamos notado qualquer presena no percurso. Isso 
nos deixava ainda mais confusos. Por que um ser da natureza, ou seja 
l o que fosse, estaria to perto da aldeia? O que tem l que ele 
deseja tanto?
  Mais uma vez o velho calou-se e ficou com o olhar perdido no tempo. 
Lucas e eu ouvamos atentamente a narrativa do homem enquanto a 
voadeira seguia seu rumo sem se importar conosco. Vez ou outra 
Nicolau nos avisava da presena de um galho ou de uma curva mais 
ousada que faria para livrar-se de uma tora de rvore cada.
  Atentos que estvamos  conversa daquele av, s queramos que ele 
retornasse do ponto em que havia parado e nos dissesse o que tinha 
ocorrido.  bem verdade que ouvira muitas narrativas iguais a essa e 
que sabia que algumas pessoas ficavam loucas depois de passar por 
semelhante situao. Talvez por isso o ajot parasse sempre sua 
narrativa. Seria por que lembrava de algum episdio mais marcante? 
Ser que algum dos amigos ficara louco?
  -- Continuamos a caminhar sem demonstrar medo. Ou ao menos tentar 
agir assim porque, conforme j nos disseram nossos avs, os seres da 
floresta atacam apenas os que demonstram medo.
  -- Mas  possvel no demonstrar medo numa situao como essa? -- 
perguntou Lucas timidamente.
  -- Medo, menino da cidade,  algo que a gente pode controlar. Este 
ser da floresta existe mesmo e pode fazer mal pra gente. E se a gente 
acredita que algo pode fazer mal, ento  preciso ter medo, sim. 
Acontece que quando nossa sobrevivncia depende 
<93>
do controle do medo,  preciso enfrent-lo com, pelo menos, 
esperteza.
  -- E foi assim que vocs o enfrentaram? -- perguntei.
  -- Assim imaginamos: se ns consegussemos capturar um desses, 
ficaramos muito famosos em todos os lugares. Por isso decidimos 
seguir as pegadas da "coisa".
  -- Como foi isso, ajot? -- provoquei ainda mais o velho.
  -- Pensvamos que ia ser fcil. Bastava seguir as pegadas e logo 
veramos o monstrinho e o colocaramos dentro de um cesto para 
lev-lo  aldeia. No entanto, quando fomos seguir a trilha, 
percebemos que as pegadas entraram pela mata. Ns, na nsia de 
prendermos o serzinho, resolvemos seguir mais um pouco achando que 
estava bem perto. E de fato o barulho que vinha do mato nos dava a 
idia de que ele se encontrava bem prximo a ns. Apressamos o passo 
seguindo nossa intuio e no demos a menor bola para a noite que 
caa com pressa. Depois de algum tempo rodando nos demos conta de 
estar perdidos. Imediatamente estancamos para examinar a situao.
  -- Nessa hora baixou o desespero, av?
  -- Ainda no. Precisvamos identificar o local para pensar o que 
fazer em seguida.
  -- Conseguiram identificar? -- Lucas precipitou-se na pergunta. 
  -- No era nenhum lugar conhecido e ainda mais naquela hora, que a 
gente j no tinha claridade suficiente para ver qualquer coisa 
possvel. Decidimos montar um abrigo e passar a noite ali, correndo o 
risco do ataque de algum animal noturno. Nos organizamos em turno 
para vigiar e recaiu sobre mim a responsabilidade das primeiras 
horas. Foi a noite mais horrvel de minha vida. Nunca tinha ouvido 
tantas vozes juntas. Vozes que se confundiam com as de homem, bichos 
e outros seres. Mesmo depois que terminou meu turno, no consegui 
dormir, at mesmo porque meus colegas ficaram com muito medo e eu 
tive que ficar conversando com eles.
  -- E o que aconteceu depois, meu av?
<94>
  -- A noite demorou muito a passar. Cada pio que ouvamos era 
assustador e nos recolhamos sob a grande rvore castanheira que nos 
abrigava.
  -- E a "coisa" voltou a aparecer?
  -- No. Ouvimos muitas vezes uma forte gargalhada, como se 
estivesse zombando da gente, mas no notamos as pegadas daquele ser 
que nos fez nos perder na floresta.
  -- E o que aconteceu depois?
  -- Vimos o dia amanhecer lentamente. Nenhum de ns conseguiu dormir 
naquela noite. Quando o dia chegou, procuramos nos localizar e 
percebemos, um pouco assustados, que estvamos relativamente perto da 
aldeia. Mas o medo era to intenso que no nos demos conta dessa 
proximidade.
  -- E a "coisa" o que era, afinal de contas?
  -- Era o curupira. Ao menos foi assim que nos disseram os velhos da 
aldeia. Segundo eles,  assim que age esse ser da floresta. Ele 
confunde os caminhos e faz os incautos se perderem para depois serem 
devorados pelos espritos da noite.
  Aquele av ainda nos falou que nunca mais ele e os amigos quiseram 
seguir passos estranhos pela mata. Foi uma experincia marcante para 
aqueles rapazes, que aumentaram seu respeito pelas coisas invisveis 
que existem na floresta.

               oooooooooooo

<96>
<P>
 -- 15 -- 

 Onze de setembro

  Chegamos na cidade por volta das trs da tarde e fomos direto para 
um hotel, onde esperaramos o prximo vo.
  Como o calor estava muito forte, fomos tomar sorvete e olhar o 
movimento da pequena cidade. Na pracinha encontramos alguns amigos e 
ficamos conversando sobre nossa viagem para a aldeia.
  Lucas era sempre o mais visado pelas meninas da cidade e logo 
encetou conversas com elas enquanto eu falava com Isaas Krixi, uma 
liderana poltica muito forte entre os Munduruku. Embora 
estivssemos cansados, ficamos ali at por volta da meia-noite, 
quando voltamos para o hotel para dormir.
  O dia seguinte comeou de forma muito estranha. Tinha uma energia 
que cobria o ambiente parecendo que havia alguma coisa acontecendo. 
Fui at o restaurante enquanto Lucas dormia. A televiso estava 
ligada e vi que algumas pessoas comentavam um acontecimento recente. 
Quis saber do que se tratava. Fui informado de que havia acontecido 
um acidente com um avio nos Estados Unidos. Sentei em frente da tev 
e acompanhei o noticirio. Havia suspeita de um acidente areo.
<97>
  Lucas chegou e contei a ele o acontecido. Ele ficou interessado e 
tambm passou a acompanhar a notcia. Mal havia se assentado e outro 
avio chocou-se com a segunda torre do World Trade Center. 
Imediatamente foi confirmada a notcia de um ataque terrorista.
  As cenas que se seguiram foram as mais terrveis que havia 
presenciado. Muitas pessoas aproximaram-se para ver aquilo. Lembro 
que alguns comentrios foram feitos sobre a terceira guerra mundial 
ou o apocalipse.
  Junto conosco havia crianas que no entenderam nada do que 
ocorria.
  Apenas Lucas e eu tnhamos uma noo um pouco mais exata do que 
havia ocorrido e quais as implicaes desse atentado. Exatamente por 
causa disso, nossas opinies eram ouvidas com ateno pelo pequeno 
pblico que ali se formou.
  -- O que significa este acontecimento para ns aqui? -- perguntou 
um comerciante.
  Lucas logo se ps a comentar.
  -- Provavelmente esse ataque vai trazer uma conseqncia ruim para 
os comerciantes, pois os preos devem subir por causa da alta do 
dlar.
  -- Mas aqui a gente no usa esse tal de dlar, como  que pode nos 
afetar?
  -- Porque ele  uma moeda mundial. Muitos produtos so trazidos de 
fora do pas e obedecem ao valor dessa moeda. Ento os preos desses 
produtos sobem para que os comerciantes tenham lucro.
  -- Mesmo numa cidade como a nossa, pequena?
  -- Principalmente. Porque os produtos chegam aqui normalmente mais 
caros. Com a alta do dlar, o que era comprado por um real ser 
comprado por dois.
  Assim a conversa continuou por um tempo grande enquanto assistamos 
ao desenrolar dos fatos.
  Quando tudo ficou mais tranqilo, Lucas e eu nos pusemos a 
conversar sobre o tempo num lugar como esse, no meio da floresta 
<98>
amaznica. Um acontecimento com essa envergadura no tinha nenhuma 
repercusso imediata na vida daquelas pessoas. Elas no conseguiriam 
perceber com maior clareza o ocorrido porque estavam envolvidas com 
questes muito particulares, cujas necessidades eram muito imediatas.
  Lucas lembrou que num lugar assim duas torres no tinham a mnima 
importncia; sequer faziam idia da altura delas. Concordei com ele, 
mas minha idia tinha a ver com o tempo numa sociedade indgena.
  O tempo  algo muito relativo porque passa de modo diferente para 
cada sociedade. At o fato de ver uma imagem acaba tendo relaes 
diferentes. No capitalismo, tempo  dinheiro; na sociedade indgena, 
tempo  um deleite, uma bno, um jeito de estar no mundo. Talvez 
por isso o que ocorre no outro lado do mundo tem pouca importncia 
para essas sociedades. Torres que caem pouco dizem; conflitos que 
isso gera no tm importncia para quem vive o presente sem dar muita 
trela ao futuro.
  No deixou, no entanto, de ser um bom motivo para acirradas 
conversas sobre os rumos que o mundo seguiria dali para frente. E 
mesmo muitos lderes indgenas puderam dar sua opinio sobre o 
ocorrido mostrando que, apesar de no 
<p>
alterar em nada a vida dos 
povos da floresta, os indgenas esto atentos ao que se passa ao 
redor do mundo.

               oooooooooooo

<100>
<p> 
 -- 16 -- 

 Retorno para casa

  Iniciamos nossa volta para casa tendo vivido as emoes da 
floresta. Lucas estava visivelmente emocionado pela experincia 
vivida e procurava registrar os acontecimentos na forma de desenhos.
  Vez ou outra ele olhava para mim com um olhar agradecido.
  Fiquei pensando um pouco nos jovens da cidade. Talvez eles 
precisassem viver essa experincia de estar numa sociedade onde os 
valores so outros; onde o olhar das pessoas  diferente do que 
sempre vivenciamos na grande cidade.
  Lembrei-me da passagem de um livro que conta um episdio 
interessante sobre a educao e como ela  diferente nas sociedades. 
O livro fala do povo nativo norte-
-americano. Numa certa ocasio, 
chefes de uma aldeia foram procurados por polticos para convenc-los 
a mandar os filhos para a escola da cidade. Os chefes ouviram com 
ateno a proposta do governo e depois responderam que no iriam 
permitir a sada dos meninos da aldeia porque a escola que eles 
freqentavam no lhes ensinava o que era realmente necessrio 
aprender. Segundo os chefes, os meninos que foram anteriormente 
enviados para escolas da cidade voltavam sem o conhecimento 
necessrio para sobreviver 
<101>
na aldeia. Eles chegavam cheios de outras vontades, sempre ligadas s 
necessidades da cidade e no mais s de seu povo. No sabiam mais 
caar ou pescar. No olhavam o tempo com os olhos da tradio e no 
mais sabiam falar com os espritos da floresta, da natureza. Eles 
consideraram a proposta apresentada pelo governo e fizeram uma 
contraproposta: se o governo quisesse, aquele povo aceitaria receber 
alguns jovens da cidade para serem educados segundo seus costumes. No 
dizer dos lderes, os meninos da cidade que morassem com eles sairiam 
dali como verdadeiros homens, pois eles ensinariam os valores que um 
guerreiro deve ter: coragem, honestidade e honra.
   claro que o governo no aceitou a proposta dos lderes e os 
meninos ndios acabaram sendo levados para as escolas da cidade, onde 
eram proibidos de falar a prpria lngua e passaram a sentir vergonha 
de aceitar sua identidade cultural.
  Essas reflexes surgiram em minha cabea por estar pensando em como 
a cidade grande inverte os valores, deixando suas crianas crescerem 
sem aprender o essencial para a vida.
  Estava absorto em pensamentos quando Lucas chamou-me para perguntar 
minha opinio sobre o caso do ndio que foi queimado vivo em 
Braslia, alguns anos atrs.
  -- No sei se posso responder a essa questo de forma definitiva, 
j que houve uma comoo nacional em torno disso. Mas posso garantir 
que o problema no  dos garotos que fizeram isso, mas da sociedade 
brasileira como um todo. Eles so apenas reflexos de uma educao 
vazia.
  -- No concordo completamente -- disse Lucas --, embora ache que o 
fato de eles pertencerem a uma classe econmica mais alta tenha dado 
a eles a presuno de ter o "direito" de agir com tanto preconceito.
  -- Voc tem razo. Certamente houve favorecimento por se tratar de 
pessoas da classe mdia alta. De qualquer forma, Lucas, isso no  
relevante quando imaginamos que o caso mostrou que h dois tipos de 
justia: uma para os pobres -- quase sempre condenados -- e outra 
para os ricos -- que acabam sendo julgados 
<102>
por critrios diferentes. Muitas vezes esses critrios tm a ver com 
a posio que essas pessoas ocupam na sociedade.
  -- Voc ficou com raiva? Eu ficaria com muito dio.
  -- Na ocasio dos fatos, realmente fiquei com muita raiva. Mas no 
era uma raiva que pensasse em vingana. Era raiva pela intolerncia 
que o fato revelou. Lembro que na ocasio fiquei pensando no que 
nossos antepassados sofreram e em como foram humilhados por 
defenderem seu modo de viver. Quantos morreram ou foram escravizados! 
Quantos foram tirados do ventre de suas famlias! E o mais 
interessante -- ou trgico --  que estava se repetindo a mesma coisa 
com nossa gente. E o pior de tudo: de forma injustificvel! Ou 
melhor, apenas por brincadeira! Foi chocante.
  -- E depois, o que voc sentiu? At parece que voc no tem 
corao.
  -- No se trata de ter ou no corao, mas de analisar a situao 
de forma bem racional. H pessoas que agem s com o corao e isso as 
fragiliza muito.  preciso saber esperar antes de agir para que a 
ao possa ser efetiva. Foi isso que fiz, esperei.
  -- E no que isso foi bom?
  -- Eu consegui canalizar meu pensamento para refletir sobre as 
causas de uma semelhante ao. A encontrei a educao como causa e 
pensei que o grande culpado disso tudo so os valores que a sociedade 
est transferindo para os jovens. Ela os treina para a competio e 
nunca para ver o que h de belo nas coisas e nas pessoas. O que 
aconteceu com aqueles garotos no foi um jogo, uma competio. Fiquei 
imaginando uma conversa entre eles antes de decidirem iniciar sua 
"brincadeira". Certamente havia um ou outro que dizia que no 
deveriam fazer aquilo; havia um, provavelmente o mais macho, lder 
do grupo, que chamou todos os que no topavam de covardes, mocinhas, 
menininhas; disse que se no fizessem no fariam parte da turma, que 
contariam para todo mundo que eles eram "bichinhas", sem coragem. 
Imagino que um deles at tentou argumentar que isso no se faz com 
pessoas e que aquela brincadeira era muito inconseqente. 
<103>
Um outro disse que isso no era importante porque havia muitos ndios 
pobres e que estavam apenas livrando mais um do sofrimento. Dessa 
forma, pensava, teremos menos um para julgar quando formos advogados 
e seguirmos o caminho de nossos pais. Convencido pelos "amigos", 
todos toparam motivados pelo fato de serem aceitos pelo grupo.
  -- Entre os jovens e adolescentes esse tipo de coisa sempre 
acontece.  uma forma de aceitao no grupo. Na minha escola  comum 
isso ocorrer. Se algum no aceita o grupo, logo  considerado um 
*nerd*, algum que no pertence a um grupo de "agitadores", gente 
livre, capaz de quebrar as estruturas. Eu mesmo j sofri muito 
preconceito por ser assim... meio aquariano... meio viajante... As 
pessoas olham para mim como se eu fosse um ET s porque no consigo 
ser como eles.
  -- Exatamente, Lucas. E o que tem por detrs disso? Valores 
humanos. Os jovens comearam a pensar desse jeito no momento em que 
seus pais incutiram neles valores como a necessidade de competio. O  
processo tem incio com os pais competindo entre si. Com isso, se 
esquecem dos filhos e os deixam  merc da escola, que no tem 
compromisso nenhum com educao. Escola  lugar de conhecimento e no 
de educao. Sabe o que acontece, Lucas? Os filhos buscaram em outros 
lugares essa presena: na escola, nos amigos, nas drogas e nas 
"brincadeiras selvagens". Eu ainda acho que o principal fato que 
motivou aqueles jovens ao assassinato foi chamar a ateno dos pais 
para suas carncias. E sabe por que entre os ndios no acontece este 
tipo de evento?
  -- No, no sei e espero que voc me diga.
  -- Porque os pais sabem acolher seus filhos. Porque as mes sabem 
aconchegar os filhos no colo e catar piolho em suas cabeas; porque 
as mes no tm pressa; porque os pais brincam com eles e lhes do a 
devida ateno de modo que os filhos crescem equilibrados. Me diga 
voc que esteve na aldeia onde cresci: viu algum tipo de preconceito? 
Viu algum sendo excludo? Viu alguma criana abandonada? Algum velho 
sofrendo por estar abandonado?
<104>
  -- Voc tem razo. Eu no vi nenhum tipo de diviso na aldeia. No 
vi pessoas que tm mais que outras. Vi uma igualdade muito grande.
  Notei emoo nas palavras daquele jovem que havia tido uma 
experincia nica em sua vida. Fiquei muito feliz por ter 
proporcionado este momento to importante para ele. Talvez por conta 
da emoo ele tenha ficado calado durante o resto do percurso at o 
aeroporto de Guarulhos, em So Paulo. Ali j estvamos sendo 
esperados pelos pais de Lucas. Houve muita festa por nossa chegada, 
alm de um visvel alvio no rosto da me do menino. Coisas de me!

               oooooooooooo

<106>              
<p>
 Final 

 As conseqncias da viagem

  Depois que retornamos para So Paulo, Lucas e eu no nos vimos por 
algum tempo. Vez ou outra falava com a me dele para saber notcias. 
Confesso que ficava contente com as boas notcias que recebia: a 
viagem tinha feito muito bem para o rapaz. Segundo sua me, ele 
estava mais maduro e seguro sobre sua prpria vida.
  Alguns meses se passaram at que nos reencontrssemos. Pude, ento, 
comprovar o que j tinha ouvido a respeito de nossa viagem.
  Vale lembrar que Lucas sempre foi um aquariano tmido. Nunca havia 
viajado sozinho, no tinha muita iniciativa, era fechado para as 
pessoas e embora tivesse um bom relacionamento com todos vivia num 
mundo virtual nem sempre real.  verdade que a maioria dos jovens de 
sua idade  assim, mas ele era realmente tmido e calado.
  Quando o convidei para a viagem, no me ocorreu ajud-lo com sua 
personalidade. Mas tinha a certeza de que ele no seria o mesmo ao 
retornar. O envolvimento dele, caso ocorresse, seria um fator 
decisivo para sua mudana e isso aconteceu.
<107>
  Em nosso reencontro, quis saber suas impresses sobre a viagem. 
Tivemos uma conversa bem interessante.
  -- O que voc sentiu nessa viagem, Lucas?
  -- No incio fiquei com um pouco de receio e confuso sobre se devia 
ir ou no. Tinha um certo medo do que iria encontrar e medo das 
imagens que tinha na cabea e que reforavam em mim a idia do ndio 
e a vida que eles levam nas aldeias. De outro lado, estava muito 
ansioso, nervoso e com algumas dvidas.
  -- E tudo isso foi respondido durante a viagem?
  -- Em parte sim. O que eu tento fazer at agora  compreender as 
diferenas que existem entre as sociedades. Acho que hoje sou mais 
tolerante.
  -- A viagem ajudou voc em qu?
  -- Eu acho que cresci como pessoa porque aprendi coisas muito 
interessantes.
  -- Que tipo de coisa?
  -- Aprendi que os indgenas so menos egostas que as pessoas da 
cidade e isso os torna mais acolhedores e sinceros.
  -- Voc moraria l?
  -- Acho que sim, mas no posso dizer isso com toda certeza. Talvez 
morasse, talvez no.
  -- Como seus amigos te receberam?
  -- Quando eu comuniquei  escola e aos amigos que iria para uma 
aldeia, alguns disseram que aquilo era uma loucura, algo sem razo e 
que no levaria a nada. No dei muita bola ao que me falavam. Eu 
tinha tomado a deciso de no ser influenciado por ningum. Quando 
voltei, notei que eles ainda no acreditavam que eu tinha ido fazer 
um "programa de ndio". Continuei no dando bola a isso. O curioso  
que pessoas que eu no conhecia passaram a perguntar-me sobre minha 
"aventura" e tornaram-se meus amigos. E mais: muitas pessoas acham 
que eu sou uma espcie de heri.
  -- Olhe, Lucas, eu estou muito contente com o resultado de nossa 
viagem. Sempre achei que ela faria bem para voc. A nossa sociedade 
indgena tem muita coisa a ensinar para as pessoas 
<108>
da cidade. Acho que voc pode ensinar muitas coisas para seus amigos.
  --  isso que quero fazer de agora em diante. Essa experincia 
marcou muito a minha vida e quero dizer isso para as pessoas. Hoje me 
sinto mais livre, mais decidido, mais determinado, mais corajoso, 
capaz de tomar decises por minha prpria vontade. E isso aprendi 
observando e vivendo junto com os amigos indgenas.
  Depois dessa nossa conversa no tive mais contato com Lucas, mas 
tenho absoluta certeza de que ele est colocando em prtica muitas 
das coisas que aprendeu na aldeia.
  Vez ou outra falo com sua me e ela me d esta certeza.

               oooooooooooo

<p>
<R+>
 Coleo H Casos

 *32* -- Heloisa Prieto
  Casos de Amor
 *A casa* -- Mirna Pinsky
  Casos de Famlia
 *Manual de desculpas esfarrapadas* -- Leo Cunha
  Casos de Humor
 *Uma cidade de carne e osso* -- Maria Jos Silveira
  Casos do Interior
 *Entre vida e morte* -- Fernando Bonassi
  Casos de Polcia
<R->
  
               xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxo

Fim da Obra
